O envenenamento do território Munduruku
Na Amazônia, imagens de satélite revelam a expansão do garimpo ilegal de ouro em terra Indígena Munduruku
21 de setembro de 2026
As terras tradicionais do povo indígena Munduruku ficam ao longo da fronteira do desmatamento no Brasil, colocando-os na linha de frente da luta para salvar a floresta amazônica.
Foto: Coletivos Audiovisuais Wakoborũn e Da’uk
Foto: Coletivos Audiovisuais Wakoborũn e Da’uk
Foto: EIA
Foto: EIA
Foto: EIA
Foto: EIA
Foto: Coletivos Audiovisuais Wakoborũn e Da’uk
Foto: Coletivos Audiovisuais Wakoborũn e Da’uk
Foto: Coletivo Audiovisual Wakoborũn
Foto: Coletivo Audiovisual Wakoborũn
Os Munduruku vivem na bacia do rio Tapajós e nas áreas vizinhas há séculos.
Mas foi somente nas últimas décadas que o governo brasileiro começou, aos poucos, a reconhecer formalmente seus direitos sobre as terras que ocupam historicamente.
As Terras Indígenas habitadas pelos Munduruku reconhecidas pelo governo abrangem mais de 37.500 quilômetros quadrados.
O maior bloco contíguo de terras indígenas dos Munduruku legalmente reconhecidas está contido em três Terras Indígenas (TI).
A TI Sai Cinza, com 1.260 km², foi oficialmente homologada em 1991
A TI Munduruku, com 23.820 km², foi oficialmente homologada em 2004
E a TI Kayabi, com 10.500 km², foi oficialmente homologada em 2013.
Essas terras estão sendo invadidas por garimpos de ouro ilegal, apesar das proteções legais que proíbem o garimpo comercial. O garimpo ilegal está destruindo florestas e cursos d’água em toda a terra Munduruku, envenenando o meio ambiente com o mercúrio tóxico utilizado durante o processo de garimpo.
O uso de mercúrio no garimpo ilegal está contaminando os rios e os peixes consumidos pelos Munduruku, expondo a população a níveis perigosos do metal.
Os dados anuais de desmatamento da Global Nature Watch mostram a progressão do garimpo ilegal ao longo dos rios, concentrada no leste e no norte da Terra Indígena dos Munduruku entre 2014 e 2024.
Após uma campanha contínua dos Munduruku e seus aliados, o Supremo Tribunal Federal do Brasil e a Corte Interamericana de Direitos Humanos instaram o governo a fazer cumprir as leis que protegem os povos indígenas e a impedir as invasões garimpeiras.
Entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, o governo federal realizou uma desintrusão (operação de fiscalização) contra o garimpo ilegal de ouro nas Terras Indígenas Munduruku e Sai Cinza. Embora a operação tenha interrompido temporariamente a maior parte do garimpo, os impactos foram de curta duração. Logo, as atividades voltaram a se intensificar.
A EIA está apoiando o uso, por parte das organizações de resistência do povo Munduruku, de tecnologias como GPS, imagens de satélite e drones para monitorar e documentar invasões territoriais e fornecer provas às autoridades brasileiras e à Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Uma série de relatórios de monitoramento elaborados por três organizações munduruku — a Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn, a Associação Da’uk e o Movimento Munduruku Ipereğ Ayũ — com o apoio da EIA levou o Ministério Público Federal (MPF) a exigir explicações dos órgãos governamentais encarregados de proteger as terras indígenas no início deste ano. Até o momento, não temos conhecimento de quaisquer outras medidas tomadas pelo governo para impedir o garimpo ilegal na terra munduruku.
À luz das evidências, uma delegação da Corte Interamericana de Direitos Humanos viajou ao Brasil no início de setembro para avaliar o cumprimento, por parte do governo, de suas obrigações previstas no direito internacional de proteger os direitos e os meios de subsistência dos Munduruku.
Antes da visita da Corte, as organizações munduruku e a EIA apresentaram conjuntamente novas evidências às autoridades brasileiras e à Corte. O relatório utiliza imagens de satélite de alta resolução para documentar dez locais de garimpo ilegal em atividade em 2026 nas Terras Indígenas Munduruku e Sai Cinza.
Apresentamos aqui quatro exemplos de novas atividades de garimpo ilegal identificadas no relatório.
Um importante local foi identificado próximo à nascente do rio Crepori, no sul da Terra Indígena Munduruku.
Esta é a aparência do local em outubro de 2025, segundo imagens de satélite.
Dois meses depois, uma estrada de quatorze quilômetros havia sido aberta atravessando o Parque Nacional do Rio Novo até uma área de garimpo ilegal dentro da Terra Indígena Munduruku, conforme evidenciado pelo desmatamento visível nas imagens de satélite.
O local havia se expandido em março de 2026, quando os Munduruku e a EIA o detectaram pela primeira vez e notificaram as autoridades brasileiras.
Em maio, o local havia se expandido ainda mais.
Em julho, mais de 13 hectares de floresta (uma área equivalente a 18 campos de futebol) haviam sido desmatados.
A EIA confirmou a atividade de garimpo no local por meio da aquisição de uma imagem de satélite de altíssima resolução.
A série de poças, repletas de mercúrio tóxico, onde antes corria um curso d’água, é um indício claro de atividade ilegal de garimpo de ouro.
Em um segundo grande local de garimpo, as atividades foram interrompidas durante a operação de fiscalização do governo federal ao garimpo ilegal, iniciada em novembro de 2024, mas foram retomadas logo após o término desta operação.
As imagens de satélite mostram uma rápida expansão do garimpo no local entre julho e novembro de 2024.
Esta imagem é de julho.
E esta imagem é de novembro, quando o governo iniciou sua operação de fiscalização.
As imagens de satélite mostram pouca ou nenhuma atividade de garimpo durante a operação, que foi concluída em janeiro de 2025.
Mas entre março e outubro de 2025, como mostrado aqui, o garimpo se expandiu significativamente.
E continuou a se expandir até julho de 2026.
A EIA estima que cerca de 30 hectares de floresta (aproximadamente 42 campos de futebol) tenham sido desmatados neste local desde a operação de fiscalização.
A EIA utilizou imagens de satélite de altíssima resolução para verificar a atividade de garimpo no local.
Mais ao norte, há dois locais de garimpo adjacentes cujas atividades tiveram início no início de 2026.
Os primeiros sinais de garimpo podem ser observados nas imagens de satélite de janeiro de 2026.
Em maio, a primeira área já havia crescido significativamente e o desmatamento era visível em uma segunda área, a oeste.
Em julho, áreas de desmatamento se estendiam por quase 5 quilômetros no local a leste e por 3 quilômetros no local a oeste.
Imagens de satélite de altíssima resolução confirmam a atividade de garimpo na área leste, onde a EIA estima que pelo menos 17 hectares de floresta (cerca de 24 campos de futebol) tenham sido desmatados.
Os Munduruku estão exigindo que o governo brasileiro:
1. Interrompa completa e permanentemente o garimpo ilegal e remova os invasores de sua terra
2. Estabeleça uma presença permanente do Estado e um monitoramento contínuo para impedir futuras invasões
3. Preste assistência no desenvolvimento de alternativas econômicas sustentáveis que garantam que as famílias Munduruku possam viver com dignidade e gerar renda sem depender do garimpo ilegal de ouro



